Quem tem capa sempre escapa

Não é, nunca foi, nem nunca será a mesma coisa, a capa de um cd e a capa de um vinil. Quando surgiram em massa os CDs, deixou de ser igual  o olhar para o objecto que nos dava o prazer de escutar os nossos artistas do coração. Deixou de se ouvir musica com as mãos. De tactear o disco. De espreitar o seu interior. De colocar a agulha na rodela. E de o virar para ouvir o lado B.

Diga-se em abono da verdade que tamanho aqui tem toda a importância. O espaço livre que tem o livrinho que acompanha o CD é diminuto. A capa de um LP, essa sim, tem espaço que chega e sobra para se criarem grandes obras de arte.

Mas há por aí quem consiga criar verdadeiras maravilhas em espaços reduzidos. Há que inovar. Utilizar novos materiais. Criar uma identidade própria para a música que se embala.

Se formos a uma discoteca e não estivermos à procura de um disco ou artista em particular, quantas vezes os nossos olhos já não se fixaram num disco apenas pela capa. De tal maneira que temos vontade de o ouvir.

Célebres são algumas editoras que não descorando o lado estético que embala um registo, criaram identidades muito próprias. Um dos casos maiores é a independente 4AD que tinha as capas trabalhadas pela 23Envelope. Verdadeiras obras de arte. Numa montra onde se encontravam vários LPs os da 4AD distinguiam-se à distância. Tinham uma personalidade forte e vincada. Os CDs da editora continuam a mostrar carisma, mas nada é como já foi.

E depois existem capas famosas. A do máxi “Blue Monday” dos New Order em forma de disquete ficou tão cara de produzir, que mesmo sendo este o máxi mais vendido da história, o lucro não deu para pagar os gastos à Factory.

Por isso é que aqui a expressão “quem tem capa sempre escapa” faz todo o sentido. Porque existem discos que não se esquecem pelas suas capas. Porque existem capas que não se esquecem pelos artistas que as trabalharam.

Sim. Verdade. Quem não se lembra da capa com a banana amarela criada por Andy  Warhol para um disco dos Velvet Underground. Ou a capa que o mesmo senhor criou com um verdadeiro fecho eclair para um registo dos Rolling Stones.

Por isso uma capa pode fazer toda a diferença. E não há que descorar que ela faz parte do produto final. Afinal os olhos também comem, e a musica não se ouve apenas com os ouvidos!

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Nuno Ávila, um santo da casa que faz milagres pela música portuguesa.

I need nothing - uma odisseia quase inútil