Os discos de Vinil são como as almofadas velhas dos sofás das nossas mães, dão-nos conforto e fazem-nos lembrar coisas que são só nossas. Não soam na perfeição mas aconchegam a alma. Trazem-nos à memória coisas que já nem nos lembramos, e por isso mesmo, são cheios de grandes contradições. Degradam-se mas são como o vinho do Porto, quanto mais antigos melhor. Especialmente se a capa se abrir. Aí sim, o prazer é redobrado. Tanta coisa para ler e com as letrinhas tão pequeninas. Alguns trazem as letras inteiras, uma após outra. Afinal é um mundo que com o tempo se tornou gradualmente nosso. Melhor: especialmente nosso. Outras pessoas têm outros discos iguais em casa, mas o nosso é especial. E é especial porque é o nosso; com aqueles riscos e estalidos naqueles momentos que só nós conhecemos; com a capa dobrada na ponta por nos ter caído da mão por uma razão que só nós conhecemos. 

Alguns discos de vinil soam tão bem que mal olhamos para as capas começamos logo a fazer histórias e a nossa vida parece um episódio do Lost. Com a ajuda de uma capa bem produzida, a coisa ainda atinge a velocidade da luz e quando damos por nós estamos numa timeline sem tempo presente, incapazes de recuperar o que nos passou pela cabeça.
No meu caso, a história é ligeiramente diferente; a minha mãe não tinha almofadas velhas e além disso eu também nunca parava muito no sofá. Curiosamente, passava o tempo a ouvir discos de vinil e a deliciar-me com as capas. E como acontecia a quase todas as pessoas “daquela altura”, eram sempre as mesmas capas porque não havia dinheiro para muitos discos.
Quando saí de casa dos meus pais, muita coisa mudou na minha vida e os discos de vinil tornaram-se o meu fardo e o meu filão.
Fardo porque tinha que os carregar, e filão porque acabei por os vender quase todos. A vida tem destas coisas. Fiquei com alguns que guardo religiosamente num sítio que já nem sei bem qual é. Mas sei que estão lá. E vivo pacificamente com isso. E é quanto me basta, porque como diz Pessoa, a verdadeira viagem é aquela que se faz dentro de cada um de nós.

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Vitor Joaquim é criador e investigador na área da performance electrónica

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I need nothing - uma odisseia quase inútil