Um dos discos da minha vida é uma capa. Não me lembro do nome do grupo – era Glass qualquer coisa e a História não o aceitou sequer na lista de espera para nota de rodapé. Lembro-me da imagem da capa do disco, permanentemente em saldos. Dois manequins, um escritório montado nos anos 70, uma pose entre uma perversão voyeurista e um livro de boa conduta organizacional com sentido kitsch. Ou talvez não fosse nada disto. Talvez a minha memória apenas gostasse que fosse.

Mas o poder magnético da capa de um disco que nunca consegui comprar (apesar de ter vivido sempre em saldos) era como nunca vi outro: não havia música capaz de estar-lhe à altura. E, por isso, o prazer que extraía dali não era comparável. Aquela capa permitia fantasiar alarvemente com alguma da música mais requintada e bela alguma vez concebida, perfeita por se manter um enigma não concretizável. Tê-la ouvido teria simplesmente reduzido a cinzas essa fantasia. Uma capa, como é evidente, não é somente uma capa. É a primeira porta para um universo. E quando a porta é demasiado bela e os autores demasiado anónimos, é de desconfiar que o melhor músico de um disco é o designer.

Esta história, do melhor disco que nunca ouvi, deixou-me um remorso intermitente: talvez o devesse ter comprado, penso hoje. Acho muitas vezes que o devia ter feito. Mas nunca me arrependi de jamais o ter ouvido.

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Gonçalo Frota acumula discos desde que se lembra. Tem uns quantos.

I need nothing - uma odisseia quase inútil