Repositórios de histórias e das emoções que as enriquecem, as capas que acomodam os diversos estilos musicais são o motivo da nossa exposição. O enfoque é feito nas capas dos discos que tantas vezes nos conquistam a memória quando a música ainda mal se começou a formar nos nossos ouvidos. Verdadeiros desastres gráficos ou elevadas ao estatuto de ícone, injustamente ignoradas ou testemunhos de uma época, as capas garantem que o ouvir é acompanhado pelo ver e tocar, pelo coleccionar, pelo guardar. De capa em capa, ligando as  várias histórias, escrevemos outra ao som de uma música que repete: I need nothing, I’ve everything I need.

I need nothing resultou de uma ideia Cãoceito + Burdman e sua primeira apresentação pública acontece enquanto projecto tangencial da EXD’11. “Useless”, tema desta 6ª Edição da Bienal foi o ponto de partida e a reflexão sobre o modo como as capas (neste caso de vinil) ajudam a “ouvir com os olhos” foi a meta que tentámos alcançar. Numa época em que os ficheiros audio digitais dominam mas em que os suportes tradicionais ainda conseguem conquistar adeptos,a embalagem sendo inútil para uns, continua a ser relevante e valiosa para outros. 

Nesta Odisseia contámos com a ajuda de um conjunto de pessoas que directa ou indirectamente vivem ao compasso da música que compram, descarregam, trocam ou criam. Os Parenthetical Girls emprestaram a música (Doughnut) para o vídeo, os Moopie filmaram e pós-produziram, a Matéria prima, mais um vez, cedeu-nos o seu espaço de Lisboa, os designers/ilustradores/artistas plásticos - Ariana Couvinha, Carla Almeida, Daniel Marques, Diogo Carvalho, Júlio Dolbeth, Hugo Oliveira, Manuel F. Sousa, Mariana Fernandes, Miguel Feraso Cabral, Miguel Vale, Nuno Aguiar, Paulo Lourenço, Paulo Serra, Pedro Naves, Rodrigo Burdman, Rui Vitorino Santos e Samir Mesquita - ajudaram a desenhar as mais de 200 capas de vinil que animam o vídeo e são o elemento central desta exposição e ainda todos os que, com os seus textos, contribuiram para enriquecer e potenciar esta reflexão.

Cãoceito - suportes gráficos para projectos musicais 

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I need nothing - a nearly useless Odyssey 

Repositories of stories and its enriching emotions, the covers, that accomodate the existing panoply of musical genres, are the motto for this exibition. The focus is made on album covers that often conquer our memory even when music slightly reached our ears. Major graphic disasters or deified, unduly ignored or zeitgeists, covers provide listening with a touch and an image, with the act of collection and share. From cover to cover, going thru all the stories (and histories), we wrote a new one to the sound of a song that repeats: I need nothing, I’ve everything I need.

'I need nothing' is an original concept from Cãoceito + Burdman, shot by Moopie. Its premier happens as a tangential project of EXD'11.

'Useless' - the motto of biennial's current edition - was the kick-off, and the thought on how album covers (vinyls, in this case) enable people to 'listen with the eyes' the main goal of the project. At a time where digital audio files dominate but where traditional mediums still seduce fans, the album covers, being useless for some, stay relevant for others.

In this odyssey we benefited from the help of a set of people which, directly or not, live by the rhythm of the music they buy, download, share or create. The Parenthetical Girls lent music (Doughnut) to the video; Moopie shot the video; Matéria Prima yielded the venue in Lisbon; designers/illustrators/artists - Ariana Couvinha, Carla Almeida, Daniel Marques, Diogo Carvalho, Júlio Dolbeth, Hugo Oliveira, Manuel F. Sousa, Mariana Fernandes, Miguel Feraso Cabral, Miguel Vale, Nuno Aguiar, Paulo Lourenço, Paulo Serra, Pedro Naves, Rodrigo Burdman, Rui Vitorino Santos e Samir Mesquita - provided the bulk of over 200 covers, which populate the video and embody the central element of the project, and yet all others who enriched the discussion with surprising texts.

Cãoceito - artwork and packging for musical projects

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www.caoceito.com 

Hugo Oliveira
http://www.serge-against-bourg.net/site/

Um dos discos da minha vida é uma capa. Não me lembro do nome do grupo – era Glass qualquer coisa e a História não o aceitou sequer na lista de espera para nota de rodapé. Lembro-me da imagem da capa do disco, permanentemente em saldos. Dois manequins, um escritório montado nos anos 70, uma pose entre uma perversão voyeurista e um livro de boa conduta organizacional com sentido kitsch. Ou talvez não fosse nada disto. Talvez a minha memória apenas gostasse que fosse.

Mas o poder magnético da capa de um disco que nunca consegui comprar (apesar de ter vivido sempre em saldos) era como nunca vi outro: não havia música capaz de estar-lhe à altura. E, por isso, o prazer que extraía dali não era comparável. Aquela capa permitia fantasiar alarvemente com alguma da música mais requintada e bela alguma vez concebida, perfeita por se manter um enigma não concretizável. Tê-la ouvido teria simplesmente reduzido a cinzas essa fantasia. Uma capa, como é evidente, não é somente uma capa. É a primeira porta para um universo. E quando a porta é demasiado bela e os autores demasiado anónimos, é de desconfiar que o melhor músico de um disco é o designer.

Esta história, do melhor disco que nunca ouvi, deixou-me um remorso intermitente: talvez o devesse ter comprado, penso hoje. Acho muitas vezes que o devia ter feito. Mas nunca me arrependi de jamais o ter ouvido.

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Gonçalo Frota acumula discos desde que se lembra. Tem uns quantos.

Os discos de Vinil são como as almofadas velhas dos sofás das nossas mães, dão-nos conforto e fazem-nos lembrar coisas que são só nossas. Não soam na perfeição mas aconchegam a alma. Trazem-nos à memória coisas que já nem nos lembramos, e por isso mesmo, são cheios de grandes contradições. Degradam-se mas são como o vinho do Porto, quanto mais antigos melhor. Especialmente se a capa se abrir. Aí sim, o prazer é redobrado. Tanta coisa para ler e com as letrinhas tão pequeninas. Alguns trazem as letras inteiras, uma após outra. Afinal é um mundo que com o tempo se tornou gradualmente nosso. Melhor: especialmente nosso. Outras pessoas têm outros discos iguais em casa, mas o nosso é especial. E é especial porque é o nosso; com aqueles riscos e estalidos naqueles momentos que só nós conhecemos; com a capa dobrada na ponta por nos ter caído da mão por uma razão que só nós conhecemos. 

Alguns discos de vinil soam tão bem que mal olhamos para as capas começamos logo a fazer histórias e a nossa vida parece um episódio do Lost. Com a ajuda de uma capa bem produzida, a coisa ainda atinge a velocidade da luz e quando damos por nós estamos numa timeline sem tempo presente, incapazes de recuperar o que nos passou pela cabeça.
No meu caso, a história é ligeiramente diferente; a minha mãe não tinha almofadas velhas e além disso eu também nunca parava muito no sofá. Curiosamente, passava o tempo a ouvir discos de vinil e a deliciar-me com as capas. E como acontecia a quase todas as pessoas “daquela altura”, eram sempre as mesmas capas porque não havia dinheiro para muitos discos.
Quando saí de casa dos meus pais, muita coisa mudou na minha vida e os discos de vinil tornaram-se o meu fardo e o meu filão.
Fardo porque tinha que os carregar, e filão porque acabei por os vender quase todos. A vida tem destas coisas. Fiquei com alguns que guardo religiosamente num sítio que já nem sei bem qual é. Mas sei que estão lá. E vivo pacificamente com isso. E é quanto me basta, porque como diz Pessoa, a verdadeira viagem é aquela que se faz dentro de cada um de nós.

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Vitor Joaquim é criador e investigador na área da performance electrónica

www.vitorjoaquim.pt

www.soundcloud.com/vitor-joaquim

www.youtube.com/vjoaquim

Quem tem capa sempre escapa

Não é, nunca foi, nem nunca será a mesma coisa, a capa de um cd e a capa de um vinil. Quando surgiram em massa os CDs, deixou de ser igual  o olhar para o objecto que nos dava o prazer de escutar os nossos artistas do coração. Deixou de se ouvir musica com as mãos. De tactear o disco. De espreitar o seu interior. De colocar a agulha na rodela. E de o virar para ouvir o lado B.

Diga-se em abono da verdade que tamanho aqui tem toda a importância. O espaço livre que tem o livrinho que acompanha o CD é diminuto. A capa de um LP, essa sim, tem espaço que chega e sobra para se criarem grandes obras de arte.

Mas há por aí quem consiga criar verdadeiras maravilhas em espaços reduzidos. Há que inovar. Utilizar novos materiais. Criar uma identidade própria para a música que se embala.

Se formos a uma discoteca e não estivermos à procura de um disco ou artista em particular, quantas vezes os nossos olhos já não se fixaram num disco apenas pela capa. De tal maneira que temos vontade de o ouvir.

Célebres são algumas editoras que não descorando o lado estético que embala um registo, criaram identidades muito próprias. Um dos casos maiores é a independente 4AD que tinha as capas trabalhadas pela 23Envelope. Verdadeiras obras de arte. Numa montra onde se encontravam vários LPs os da 4AD distinguiam-se à distância. Tinham uma personalidade forte e vincada. Os CDs da editora continuam a mostrar carisma, mas nada é como já foi.

E depois existem capas famosas. A do máxi “Blue Monday” dos New Order em forma de disquete ficou tão cara de produzir, que mesmo sendo este o máxi mais vendido da história, o lucro não deu para pagar os gastos à Factory.

Por isso é que aqui a expressão “quem tem capa sempre escapa” faz todo o sentido. Porque existem discos que não se esquecem pelas suas capas. Porque existem capas que não se esquecem pelos artistas que as trabalharam.

Sim. Verdade. Quem não se lembra da capa com a banana amarela criada por Andy  Warhol para um disco dos Velvet Underground. Ou a capa que o mesmo senhor criou com um verdadeiro fecho eclair para um registo dos Rolling Stones.

Por isso uma capa pode fazer toda a diferença. E não há que descorar que ela faz parte do produto final. Afinal os olhos também comem, e a musica não se ouve apenas com os ouvidos!

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Nuno Ávila, um santo da casa que faz milagres pela música portuguesa.

I need nothing - uma odisseia quase inútil